Conteúdo adulto

domingo, 9 de outubro de 2011

Memória Checkup

“Conserve-se em vidro, e pare de reclamar da sua infância” - era o que dizia a funcionária especialista em ressonância magnética naquele consultório. “Não cuspa, não engula qualquer saliva. É necessário atenção e disciplina para que tudo dê certo”. Enquanto ela me dava ordens eu me lembrava de tempos antigos, daqueles tempos que só a memória mais apurada como a de um elefante poderia manifestar-se em um ser humano.


Lembro dos piques e do famoso esconde-esconde. Lembro de ter pegado no piru de todos os meus primos, e lembro também de que eles diziam que aquilo era “sacolinha de chup-chup” embrulhada no dedo.


Oh, quanta ingenuidade!, Eu, com apenas oito anos de idade, no auge de minha pureza, fui iniciado cedo a essa experiência sexual impactante.


Não, eu não eu guardo mágoa pelos meus primos ou pela negligência de meus tios. Na verdade a irmã mais velha - M.- daquela família me policiava tentando me ajudar, era como se ela fosse o anjo da casa – também, a única mulher, excetuando minha tia Eduarda-, protegendo tudo o que era de mais sagrado. Por ser mulher, aí já pecava M., por afugentar o açougue de seus criados. E a minha catástrofe era feita pelas minhas mãos, não por ela. O apalpar das veias penianas, e o tapar de olhos – isso mesmo, a iniciação era feita de olhos fechados, de maneira que se eu desconfiasse do ocorrido e não sentisse nenhum dedo, me daria mal.


Esta brincadeira durou um bom tempo naquele dia, e os pintos duros, duraram ainda mais tempo, especialmente na hora do pique esconde. Enquanto meu primo mais novo ‘batia a cara’ eu fui me esconder com os primos mais velhos. Engraçado, mas eles me puseram no colo e eu sentia a rigidez de seus membros. Era trocado de minuto a minuto por eles, sentando alternadamente em cada colo, de modo que sentia a pulsação de cada veia familiar; e eu de calça fina, não posso saber o que houve realmente, se foi um estupro ou se foi quase mesmo uma brincadeira. Se fosse algo premeditado deveria ser conversado para que não aconteça o pior, o ato em si, o coito infantil já era por esperado, e não existia lugar melhor para isso se não o escuro.


Bom, eu resolvi sair daquela situação humilhante, e bati meu nome “Roger” na parede- eu gritei meu nome e fui absolvido, enquanto o primo mais novo ainda procurava os aprendizes de castração sexual que estavam no beco da caixa d’água.


Daquele dia fatídico só se sabe que eu voltei pra casa e fui tomar banho, completamente me sentindo sujo e enojado. Masturbei-me no chuveiro sim, e o que há de errado com isso?, Uma criança se descobrindo e afugentando os possíveis enlaces que aquela brincadeira causaria no outro dia.


O que me assustava era a provável oposição dos pais que perguntariam quando eu chegasse em casa ”O que você estava fazendo; por quê você está tão estranho? Posso ver sua cueca garoto?”.


Dormi sem mais nem menos, as palavras apenas reveladoras simplesmente desapareceram. Subi até minha laje noutro dia, me safando do questionário patriarcal eminente. Deparei-me com cocôs de coelhos – sim, eles – os primos - tinham uma cria de coelhos e um viveiro de pássaros, e de certa forma, minha laje estava repleta de papel higiênico e merda.


Tentava devolver a merda pelo terraço deles. Assim, como éramos vizinhos tudo ficava mais divertido se a merda caísse certeira nas faces alheias dos primos porcos. Só que o meu único problema era o de estar em desvantagem numérica.


De cada três merdas que jogava para a varanda deles, cinco retornavam. Não sei como os coelhos e os pássaros defecavam tanto assim, mas deve ser os ensinamentos da sociedade capitalista. Os grãos mais selecionados, o estrago mais elevado e o maior tolete de bosta– aqueles homens dali viviam da alimentação; gordos e porcos que eram. E foi pairando sobre minha cabeça que um pedaço de cocô redondinho passou perto do meu nariz. Foi aí que eu me toquei de que a batalha estava vencida por parte deles, mas não a guerra. Só sei que ainda voltei mais algumas merdas pra o lado de lá com o intuito de acertar em cheio a cara dos melindrosos ao sexo. Foi uma tentativa frustrada, mas lavou a minha alma, pois a laje virou um depósito de merda de coelho e pássaro, e minha mãe os odiou desde sempre.


Pergunto-me se às vezes era necessário a tal iniciação e se tais brincadeiras faziam parte de um rito entre primos de primeiro grau. E eu prefiro descartar a situação de estupro. Ora, às vezes é coisa do descobrimento anatômico ou até mesmo da maldade que habita o coração das crianças – só saberei voltando no tempo, e o que é impossível.


Bom, como qualquer criança que se arrepende no outro dia, eu fui visitá-los. Não fui pra pedir e nem pra ouvir desculpas, mas sim para brincar.


André, o primo mais velho me recebeu com um sorriso de orelha a orelha; Túlio, o do meio, propôs uma partida de Campeonato Brasileiro no super Nintendo - e eu logo acatei o seu pedido – e Mário, o mais novo, queria continuar com o pique. Não sei se foi por graça circunstancial, ou mesmo pelo meu psicológico feminista de outrora, só sei que deixei Túlio ganhar todos os jogos, sem reclamar e não acatei o pedido de Mário.


Saí de lá feliz, com a escolta da irmã deles – na qual podemos chamar de Srta. M., M. de mulher, M. de aviso de segurança de proteção familiar, de querer o melhor para a família em declínio, de não estar a par da situação real. Srta. M., M de merda.


E dessa forma eu fui chutado pra minha casa, mas antes dei um beijo em todos os primos – beijo e abraço de primo – e vaticinei outro encontro iniciatório que em breve recorreria com a novidade de outros jogos menos tecnológicos e mais psicológicos.


***


Lembrei logo que a onda de RPG tomou conta da cidade, pensei profundamente no impacto que causaria outro enlace; e lá fui eu novamente, na casa proibida, arremessando os dados e preenchendo fichas de personagens – por sorte, fui um guerreiro bem pontuado, com características mágicas – o caráter medieval dominava aquele jogo que ia do mostruário de guerreiros ao clero, dos bonitos e carismáticos aos bobos da corte. E eu era um mago, um aprendiz, entre aquele mundo inventado por mentes maquiavélicas.


Tudo o que eu pensava era como sair na vantagem protegendo a minha retaguarda, e dessa forma o jogo foi conduzido. Devido a meus atributos de sorte no dado chegamos a uma sala escura; na verdade, para o mentor da história, a sala era onde se desovavam criminosos.


Eu pedi para que os personagens fechassem os olhos, e assim arremessei o dado e foi feito, cada primo de olho fechado durante a minha iniciativa. Então tirei o meu pau pra fora e fiz com que todos sorvessem a minha magia de cura, e usassem dos seus dedos para acariciar a varinha. Lembrei e adverti para eles que a conquista de tal poder foi um dom tomado por mim na última rodada.


E assim fizeram, não só no jogo, mas também em Live Action, pagando assim uma dívida de pinto salgada. E nem a Srta. M. nem a tia Eduarda seriam capazes de me julgar por esta situação constrangedora incomum. Elas que aprendam da próxima vez a cuidar bem de suas crias e eduquem-nas para o bem.


Enquanto isso, sessão interrompida:


“Pronto.pode se levantar: ressonância concluída”- disse a enfermeira.


“Obrigado”


“Agora siga a porta vermelha, ela te levará ao exame de próstata”


Fiz todos os exames e comprei um “sacolé” pra aliviar o stress do dia a dia. Como é bom ser saudável. Como é humilhante sentir um dedo mágico e fazer exames de rotina. Mas, é a vida.


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3 comentários:

Marcelo R. Rezende disse...

Eu gosto tanto disso. Me lembrou dum conto que CFA fez sobre o Collor à época das eleições, a pedido de um jornal. Acho que foi publicado em "Ovelhas Negras". Tão forte quanto, e pueril.

Um beijo, Átila.

Eraldo Paulino disse...

Nossa, que forte tudo isso.

Li tudo com muita atenção, e lembrei logo da minha infância. Nunca fui molestado (por pessoas do sexo masculino), mas conheço algumas histórias assim.

Gostei muito! Bastante revelador.

Marcio Nicolau disse...

há tanto por checar na mémoria, Átila...

O exame, por isso, deve ser mesmo rotina.