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domingo, 2 de outubro de 2011

Felicidade Felina

Eu tenho dispnéia, graças a uma bronquite alérgica que nunca foi tratada, tenho hoje vinte e nove anos, sou casada, estudada, vivida, venci na vida em todos os sentidos, até mesmo os financeiros e sexuais. Meu primeiro orgasmo foi nas minhas férias na fazenda, fazendo fubá como dizem as interioranas, ou melhor, eu posso dizer: moendo o milho e assando a periquita.

Aos dezenove anos quando brincava com o gato de minha mãe tive a certeza de que aquele momento mudaria a minha vida. Engraçado, eu não confessaria nada disso em um texto informal, mas agora está me dando vontade de falar: É que eu amo um gato. É isso mesmo gente. Eu amo um gato e pronto; alias eu amo uma gata.

Tudo começou quando aquela bichana massageava a minha cintura num fatídico domingo. Sempre quando eu punha a tomar sol de costas pela manhã ela se achegava. E como eu era – e sou – uma patricinha de dar ódio às interioranas, sempre tive uma desculpa para não limpar a piscina e ficar deitada a tarde toda de bunda pro alto. ‘Vê só, eu vou colocar minhas mãos aveludadas em serviço de classe C. Orra, nunca!’

Mas voltando ao assunto, não me incomodava a presença dos massagistas de plantão que rodeavam a chácara, na verdade todos eles estavam a procura de uma amarração de cunho amoroso, e como eu já era casada, não dava a mínima bola para eles, excetuando as sessões de massagens que aqueles homens parrudos me faziam; porém, cá entre nós, não era a minha praia e nem mesmo da minha laia aturar certas mãos pegajosas. E nada, como por exemplo shiatsu, se comparava a lambida certeira da gatinha.

Aquilo já estava me incomodando, pois era uma felicidade temporária. O fato de ela caçar ratos longe de mim já era ultrajante, de maneira que se ela distanciasse por um pequeno intervalo já fazia com que meu dia de ‘SPA’ fosse buraco a baixo. Mesmo com o melhor massagista da região, mesmo com os melhores drinks e as mãos santas mais qualificadas da região, nada disso me faria chegar ao êxtase se não fosse por obra da gata. E tudo na minha cabeça vinha a calhar no tempo em que ela subia nas minhas costas provocando sensações incontroláveis; posso dizer que cada pata peluda chegava mais próxima do que os cristãos chamam de paraíso. Contratei Michele, isso mesmo, dei um nome humano para ela, pois ela parecia humana, o nome da gata era Michele.

Michele era muito bem resolvida com sua vida amorosa felina. Tinha muitos pretendentes domesticados, crias dos vizinhos mal-humorados que odiavam a dona do SPA, no caso, minha mãe. Mas Michele não era como qualquer gata que aceita de graça as riquezas e intempéries do sítio, muito melhor, como uma boa gata, não cobrava por seus serviços. Michele não perdeu sua nobreza de gata, era saidinha, preferia os mestiços que viviam livres, caçavam ratos nas manhãs e se encolhiam todos à noite para tapear o frio.

A gata era danada mesmo gente, tinha costumes; não é que eu - sua dona de leite - tinha-lhe ensinado a etiqueta; logo ela, que vivia longe da selva e gostava de caçar ratos e baratas, estava me apaixonando por aquele ser felpudo e de maus costumes. E ela, em contrapartida, amava perdidamente seus vassalos, gatos do mundo, mestiços, pobre coitadinha, amava o gosto da sujeira.

Eu via que Michele estava necessitada de um companheiro. Até sentia as dores de cotovelo da gata. Por conta própria dei conta de pegar o primeiro gato que encontrei na rua e assim fiz Michele cruzar. Era Felpudo tinha o pelo preto, seu nome era Tufão, pois tinha a força de um Deus.

Oh! pobre Michele, agora estava prenha! Em vez de se aventurar comigo, somente eu e ela, nas minhas costas, preferiu aceitar a sutileza dos donos, dos maridos.

Hoje em dia, já na cidade grande, eu não ligo para as extravagâncias do meu marido e procuro gastar o menos possível do saldo bancário que ele me fornece. Ele paga sim, as minhas contas; e isso é o mínimo de decência que ele poderia fazer para uma dama.

Mas o caso é que Michele nasceu uma gata e este amor estava vaticinado ao declínio. Michele nasceu livre, e algum momento ela perceberia seu patamar de princesa e sairia logo do castelo e das "mãos" de vira-latas inconsequentes. Portanto quando meus últimos dias estavam sendo contados no 'SPA' da mamãe, não pude conter, guardei a gata dentro de uma mochila e esperei que a poeira abaixasse. E quando todos dormiam, eu peguei meu carro e parti sem rumo, na verdade estava voltando pra minha humilde mansão, acompanhada do maior tesouro de toda a minha vida, acompanhada da felicidade felina.

E se vocês pensam que eu deixei Michele na mão estão muito enganados, eu comprei os melhores siameses para darem conta do cio e de sua companhia sentimental nas horas críticas. É assim que sou: prática em todos os momentos. Sou uma mulher feliz e tenho um marido que me deixa muito feliz, pois arremata todas as minhas vontades. Enfim, tenho a família perfeita e Michele nunca fora tão feliz como massagista e parte de minha humilde família de gatos siameses.

3 comentários:

Michele P. disse...

Amor à primeira vista. Apaixonei-me pela crônica desde a primeira vez que me mostrou (em junho, julho?!).
Sou tua fã, sabe? :*

Beijos

Marcelo R. Rezende disse...

Eu acho um barato os textos daqui. Me divirto muito, é tudo de muito bom tom!

Eraldo Paulino disse...

Muito bom!