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domingo, 23 de outubro de 2011

A Família Laranja ou os laranjas da família

A menina de bronze não era perfeita, mas tinha suas qualidades. O menino de ouro também, mas estava valendo muito naquela cidade. A mãe regulava a família e tentava separar o passado da derrota, feito um relógio desequilibrado. O pai trabalhava e só queria saber de grana, grana e graça. Pela sala a menina de bronze dançava extasiada. Dançava e não sabia parar, e nem queria saber, só a solar. Seus reflexos perfeitos que doíam na alma, dos pés à cabeça. O equilíbrio do balé que acometia a deformidade humana da beleza, e a busca pela perfeição.

“Foi um bicho de pé que tomou conta de sua infância”, era o que dizia sua mãe na primeira entrevista que deu para um jornal local. “Mas minha filha ainda têm muito que aprender”, completou. Agora ao lado dela, a mãe dançava, tentando consertar seus erros, professando sua ignorância física de atleta escolar. A dança das duas não era ritmada como balé clássico, era sim um rock. A menina de bronze “foxtroteava” - posso assim dizer - enquanto a mãe valseava um movimento imperfeito; eram duas estrelas de cinco pontas que sangravam pelos natais passados. Duas estátuas belas que certificavam a existência de uma beleza perfeita, divina e inviolável; e sua ausência no recinto.

Hora do rush. O pai chegava à sala, cansado. Momento família. Ele apresentava seu uniforme de operário todo engraxado; tirava os chinelos e alongava os pés cheios de calos. Enquanto ele se esticava - do mesmo modo que obedecia as regras de tirar os chinelos para adentrar a casa limpa - mandava todas elas, as mulheres de bronze, girarem dali e espanarem/espionarem a cozinha.

A Tv da casa era sintonizada em comerciais de margarina. O pai então punha a esticar todas as suas extremidades até o sofá, onde o filho mais novo inventava jingles para cada produto televisivo, sendo que todas as músicas eram iniciadas e continuadas em ré menor, pois era a nota mais fácil que ele tinha aprendido na revistinha de música. Sim, esse era o menino de ouro, dizia o pai todo orgulhoso. Do jingle do suco de laranja que todos cantavam em uníssono. E pra vocês terem uma ideia: nem ele, o garoto prodígio, tinha noção de como aquela música tinha atingido milhares de acessos na internet. A cidade virou a cidade das laranjas. Uma fábrica foi instalada só pra tirar o suco das laranjeiras daquela cidade. Comissões para o pai e comichões para o filho, que cheio de aparatos tecnológicos adorava aquela situação.

O sino apitava na sala feito uma chamada de quarto de hotel. Era o pai pedindo suco de laranja para a filha, que bailava até a cozinha e tratava de pegar a faca. A mãe ia abençoada pelo título de esposa até o jardim e feito uma macaca subia pra pegar o fruto alaranjado. A filha já embaixo com a cesta na mão, atirava a faca para que a mãe cortasse os frutos. Já havia algumas laranjas maduras no chão, mas os homens da casa consideravam tudo o que caía daquela árvore podre, por isso mesmo só entrava na cestinha os frutos cortados, que, poderiam até estar verdes, mas eram bons frutos, segundo o achismo machista.

Com os materiais nas mãos, vão elas à cozinha. A mãe lavou os frutos e os enfiou na máquina de fazer sucos. O suco estava pronto e foi entregue para o pai. Nesse momento o filho arranhava uma última nota em ré menor e desligava a Tv. O pai o agradecia pelo feito, pois o controle do eletrodoméstico sumiu durante o último ensaio da filha. Na verdade o controle foi arremessado na varanda quando o quinto pliê era assentado pela mãe – tudo estrago de um tombo fatídico de mulher - e o controle da sala sumia; e o pai extasiado e já acostumado com o controle, se aborrecia frequentemente.

A mãe exigia muito da menina nos ensaios, ”Não se tira mais terceiro lugar nessa casa” ralhava. A menina era reconhecida sempre pelo seu esforço, mas nunca desbancava os talentos de outros lares ou o do irmão mais novo.

Uma coisa podia se dizer: se houvesse um concurso de dentes perfeitos, assim como houve há 40 anos com sua mãe, que, diga-se de passagem, tirou terceiro lugar – classificada como dentes limpos e careados- a filha ganharia não só o sorriso mais belo, mas também o mais branco e brilhoso.

A vida e suas injustiças. A hora certa e o tempo errado, ou o mesmo que dizer “o contragosto de ficar em casa, sozinho, ou no aprendizado enquanto chove lá fora alguns despregados da matilha”.

O vizinho de baixo batia com força a vassoura contra a parede daquele apartamento barulhento. Bateu com tanta força que fez um buraco e pode visualizar a cena supracitada em questão. Parecia um espetáculo. Ele pegou a câmera e começou a filmar, filmou as imundícies da família e jogou as imagens pela internet. A vizinha de cima assistia ao vídeo do vizinho em um programa de câmeras ao vivo e comentava com a amiga no MSN algo do tipo “ Ora, a grama deles é robusta e mais verde, tudo isso porque tem agrotóxicos; pelo menos a minha é rala e mais saudável”, “É mesmo amiga” concluiu e concordou a confidente, tomando um copo de suco de laranja e cantando um jingle conhecido.

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