Conteúdo adulto

domingo, 18 de setembro de 2011

Tempo Chiclete

Você sabe o que eu estou sentindo; sabe quando dois planetas se chocam e você fecha os olhos e não vê o inacreditável prisma, ou quando você penteia os cabelos do saco com a escova de dente do primo e não nota que o seu pentelho ficou nas cerdas, ou quando a escova de dente é nova e você não tem pasta e abre com a tesoura uma pasta antiga, ou quando você escova mesmo sem pasta, ou quando a verruga é retirada com agulha fina deixando um pequeno filete de sangue escorrer o dedão do pé esquerdo, ou quando na chuva torrencial o trovão destrói dois geradores deixando a cidade escura e você é o único a obter a luz monofásica capaz de enxergar o mundo feito idade média?

Sabe quando te olham de lado e sorriem com gosto de cereja depois de descer um pé de macieira e estraçalhar seus miolos, ou quando não falam e apenas acenam as cabeças de modo que os segredos são descobertos e incompreensíveis, ou quando o tempo para de chover e é arco íris pro girassol nascer numa terça-feira, ou quando inventamos uma música genial e esquecemos a letra de modo que a letra e a melodia se tornam únicas e intransferíveis, ou quando é mesmo a música de um sonho e não é sua e sim do sonho, ou quando você é interrompido numa apresentação musical e mesmo assim é vaiado.

Sei de cor toda a tabuada do sete e todas as cores do arco-íris, incluindo as não cores que são duas. E pra quê? Pra almejar algum talento pitoresco ou mesmo pra fingir minha imundice intelectual primitiva e zigomática. Talvez pra deixa escancarado um hemograma completo da atual situação literária do país (Linfócitos: três, Monócitos: um, segmentados: mil, plaquetas: indeterminadas – excluindo os basófilos recém nascidos e qualquer outro parâmetro que, nesta situação, não acrescentaria em nada).

Na verdade eu já sabia que esse não seria um texto genial, tampouco um bom texto, mas mesmo assim sabendo continuo apertando as teclas aqui pra manter um tipo de ponto, como costureiro de palavras e de contato com a modernidade, por quê e pra quê?, Por que por mais incrível que pareça, estou no século xxi e não gosto de epopéias encomendadas por atacado, nem de criar falsas expectativas; pra quê? Para que os outros me notem como tal, talo de cebolinha vencida, energúmeno.

E quando você começa a digitar e escoRrega no ALT Sem querer e quando você não sabe que existe uma tecla necessária pra voltar o que era antes pra se fazer um bom texto.

Sabe que existe um mouse, que não é rato, mas que te orienta como uma seta que gira às vezes carregando alguma página da internet de clique único; e quando esta seta são flores amarelas para as meninas que brincam de pintar bonecas, e carros vermelhos para os garotos de doze anos que perderam a virgindade com a filha da empregada e se sentem homens por isso.

E quando é aniversário da sua prima e o tema da festa é sobre o Shereck e você se lambuza de glacê verde porque os personagens são assim. E quando você vai pro cinema com o seu namorado pra ver Smurfs e descobre que só existe uma smurf que provavelmente deu para o elenco inteiro pra poder fazer aquele filme smurfudido. E quando o café acaba e o organismo pede por cigarro, cerveja ou drogas ilícitas. E quando é cinza o céu e não chove. E quando o cú se abre para a bosta sair à noite pelos canos. E quando o vômito chega junto com a vontade de fazer xixi. E quando você está com fome na cama e morrendo de sono e mesmo assim se levanta pra comer algo improvável. E quando você toma muito antiácido depois de bater o carro num poste e seu estômago agradece pela preferência.

Assim como todos os acidentados enfileirados em tumultuosos túmulos, você se martiriza e toma um gole de vinho na festa de ano novo; e quando o vinho é vinagre e no churrasco é vinagrete, e quando você bebe até ficar acamado, e quando você bebe até ficar em coma; e quando você colocava no SBT e assistia a banheira do Gugu e imaginava câmeras adentrando a bunda das participantes e o pinto duro dos artistas num ménage a trois; e quando é hora de parar de falar besteira, ficando quieto esperando a buzina do carro na festa de formatura.

E quando você espera uma ligação importante e seu celular exige o SIM, o NÃO, o PIN, o PUK a PUTA e o caralho a quatro e você resolve tacar ele na cara da sua tia-cunhada que te deu o xingue-lingue comprado diretamente do inferno camelônico; e quando o DVD é pirata e o filme é desfocado e uma merda pra assistir; e quando você ouve os risos da platéia de uma piada que você não entendeu; e quando você não sabe a resposta da prova e consulta a borracha do colega do lado direito porque você sentou na carteira da parede do lado esquerdo. Resumindo e exemplificando: numa prova sente-se sempre do lado de uma parede, independente do lado, só faça isto, antes que algum coleguinha o faça, porque as anotações primordiais da prova estarão secretamente nos seus rabiscos e não debaixo das carteiras, porque debaixo da carteira é lugar de chiclete e na manga da camisa é lugar de relógio – para matemática, sim, use-o.

E de chiclete eu mastigo e muito, pra tirar sujeira e carne. E de tempo já estou de saco cheio de esperar - o da prova que se resolva em um espetáculo de quarenta e cinco minutos.

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4 comentários:

Eraldo Paulino disse...

É fantástico abrir esse blog (não é porque contribuo não) e ver toda diversidade e densidade dos textos. Este aqui, é um dos meu prediletos que eu já li. É longo, mas parece que não. Acabou rápido.

Parabéns, meu caro! Tua sensibilidade é cativante.

Abraços!

Gleidson Gomes disse...

Gosto de fluxo de (in)consciência!

Lembra-me muito o Caio F., um autor que amo.

Abs

Gleidson

Marcio Nicolau disse...

fiquei grudado até o final, Átila, meu amigo.

Marcos Montanhês disse...

Eu li sem saber de quem era no início. Então a coisa foi se estruturando e quando cheguei ao fim e constatei (certifiquei-me) que era seu, Átila, fiquei contente, porque fez todo o sentido.