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sábado, 17 de setembro de 2011

EU OUTRO

Não que estivesse perdido. Não. Talvez um pouco desorientado, com certeza disperso. Por isso era impossível determinar quando ele chegou. Sem perceber, há tempos ele já conversava consigo. Assim meio sem ser convidado, ele vinha e dizia o que queria. Sabia que sempre era ouvido, não importando se suas palavras eram flores ou facas. Vinha e as dizia.

Com o tempo, aprendeu a deixar a porta aberta, para que ele entrasse. Já que não podia evitá-lo, melhor tê-lo como amigo. Ser amigo de um estranho conhecido. Eu outro vindo de dentro. Era dele a voz que sempre falava consigo, mesmo quando estava conversando para fora. Era com ele que conversava quando estava em silêncio.

Apesar de semelhantes, esse eu outro era diferente dele. Trazia um coração novo, um pensamento claro e um sorriso no rosto que não lhe pertenciam antes. Esse talvez soubesse amar, porque já nasceu feliz. E aos poucos foi tomando conta da casa. Cuidando das rachaduras, infiltrações. Limpou cada sujeira escondida, iluminou onde ainda faltava luz. Plantou flores no jardim abandonado. Desentupiu as valas para a lama poder escorrer.

Um dia, descobriu que seus olhos já não tinham mais aquele negrume de nuvem carregada. E passou a imaginar-se como uma manhã de céu azul caminhando pela cidade. Houvera alguma coisa, e ele tentava entender. Nada grande, provavelmente, no entanto pleno. Era sutilmente que as coisas aconteciam dentro dele, por isso demorava a compreender.

Aos poucos, ele foi tornando-se um conhecido estranho. Estava lá, mas sem a certeza de ainda existir. Com o tempo, foi esvaziando o seu quarto escuro. Jogou fora as roupas velhas, maltrapilhas. Sepultou os sonhos mortos. E devagar foi se afastando. Ainda quis gritar, e percebeu que ninguém ouvia sua voz. Então começou a ter vergonha de entrar em sua casa nova. Quase não a freqüentava mais. Até que um dia percebeu-se apenas uma (des)agradável lembrança daquele eu outro.

4 comentários:

Michele P. disse...

Gleidson

Melhor estilo "Jorge Luis Borges"!
Sou tua fã, viste? :)
Texto indiscutivelmente fantástico.

Um abraço

'Lara Mello disse...

Nossa, muito bom.. Gostei mesmo!

:)

Átila Goyaz disse...

Essa dualidade cruel... Adorei!

Ricardo Miñana disse...

Excelente texto, gracias por compartir.
feliz fin de semana.