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sábado, 13 de agosto de 2011

Última noite

Foi depois de uma longa noite que aquela ideia nasceu-lhe, junto ao primeiro raio de sol da manhã. Nasceu não, tomou forma, germinou. Já tinha pensado naquilo outras vezes, porém nunca levou-se a sério. Tantos pensamentos estranhos cortaram-lhe a mente durante aquela noite, de todos, no entanto, apenas este restou. Fora uma noite difícil aquela, da qual achou que não conseguiria acordar jamais. Mas acordou.

Levaria adiante a ideia, e tinha de ser naquele mesmo dia, para não haver tempo de dúvidas. Duvidar agora seria um erro, sabia o que tinha de fazer e se se omitisse, sofreria. Sofreria ainda mais, na verdade, porque tirando os poucos momentos de descontração, teve uma vida sofrida até antes de tomar a decisão. Não que tivesse passado fome ou trabalhado demais ou apanhado sem motivo, não era isso. Seu sofrimento fora sutil, quase imperceptível para os outros e talvez até incompreensível, fora uma noite de agonia.

Aquela ideia, então, veio como um ponto final para tudo aquilo. Medo de não saber viver, falta de amor, tristeza insuperável, mágoas com seus pais. Coisas assim, aparentemente pequenas, porém que lhe consumiam por dentro e minavam qualquer possibilidade de ser feliz. Se não fosse para ser feliz, para que estar vivo então? Acreditava que essa ideia vinha para isso: para que pudesse ao menos ser feliz.

Faria tudo como se não houvesse nada de diferente para fazer naquele dia. Leria os mesmos livros de sempre, tentaria encontrar um sentido para sua existência, sorriria, tomaria banho, sentir-se-ia estranho como se não soubesse viver, comeria, pensaria em sexo, choraria de incompreensão escondido, imaginaria um futuro brilhante, passaria na memória mais uma vez como seria quando encontrasse seu verdadeiro amor, assistiria suas novelas preferidas, tentaria escrever, oraria envergonhado de acreditar em Deus, olharia em volta como se não houvesse naturalidade nenhuma na vida e tudo estivesse envolto em mistério. Enfim, agiria como se fosse um dia qualquer.

O entardecer era o momento perfeito. Na beira do rio, ali pela Estação das Docas. Marcaria com ele lá, como um encontro casual, de amigos. Conversaria coisas banais, falaria coisas de amor, tentaria distraí-lo. Ele não perceberia nada, com certeza, porque não seria capaz de imaginar o que iria acontecer. Até gostaria de estar a sós com ele, perto do rio, vendo o sol se pôr.

Chegaram juntos ao local combinado. Apesar de tudo, ainda estavam em certa sintonia. Porém não trocaram uma palavra sequer. O silêncio vinha em ondas, sobre o rio. Contemplaram o ocaso juntos, como tantas vezes fizeram. Choraram juntos também, de ver tanta beleza. Continuaram calados. Tudo tinha um tom de despedida. Não queria assustá-lo.

Meteu a mão no bolso da calça. Tirou um canivete daqueles com várias funções. Acionou a lâmina, sem que ele pudesse ver. Estava distraído com as cores do sol poente. Tremeu um pouco. Tinha de ser rápido, senão não conseguiria fazer aquilo. Então, de repente, de um só golpe, enfiou o canivete em seu peito. Deu um grunido de dor, contraiu os músculos da face, e levou a mão ao local ferido. Tentou conter o grito quando fez uma abertura maior, não havia ninguém por perto. Sangrava muito.

Tirou o canivete com um puxão. Desfez-se dele. Segurou-se com a outra mão no parapeito da orla. O sol dava seus últimos suspiros. Respirou fundo e meteu a mão na abertura feita no peito. Gruniu novamente. Quando sentiu aquela massa quente e pulsante dentro de sua mão, arrancou-a de uma vez. A vista escureceu um pouco, quase caiu. Estava ali, na sua frente. Agora era só jogá-lo no rio. Aquele coração já não lhe servia mais.

4 comentários:

Átila Goyaz disse...

Foda!

Michele P. disse...

Que triste... É uma metáfora daqueles que desacreditam na vida e passam a vegetar, sem se importar com nada e ninguém.
Curti o conto. Muito bem escrito, com momentos de tensão que prendem a leitura...
Gostei.

Abraço meu

Marcos Montanhês disse...

Descoração. Não gostei dessa história.

Jeronymo Artur disse...

dizem que existem pessoas especializadas em trazer corações de volta. na hora certa. :)