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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Quando os sonhos nos traem

Publicado originalmente no Blog Lenda Pessoal


Aos nove anos Mariana pensava em ser bailarina. Aos onze, queria ser veterinária. Aos treze sonhava em ser jornalista. Mas a falta de oportunidade e o destino, ou seja lá quem for, suprimiram os seus planos e o obrigaram a seguir um outro rumo na vida. Hoje, com 23 anos, a jovem de olhos claros e cabelos encaracolados trabalha como prostituta numa ruela do centro histórico de Belém.

Expulsa de casa pelo pai aos 17 anos, após a descoberta de uma gravidez indesejada,  Mariana encontrou  na prostituição a única saída para resolver seus problemas. Uma história que se repete entre as muitas mulheres da rua onde trabalha."Eu cheguei aqui grávida de três meses, e mesmo assim tive que me prostituir para me sustentar. Prometi para mim mesma que quando meu filho nascesse daria uma vida melhor pra ele. E foi isso que fiz. No dia que ele nasceu, deixei ele na maternidade com uma carta de recomendação para que uma familia de verdade cuidasse dele", conta.

 Mariana cobra 20 reais por um programa. Esse é o preço ajustado entre todas as prostitutas da rua. "Aqui não vem nenhum homem que tenha muito dinheiro. Homem com muito dinheiro procura um puteiro de luxo. Os nossos clientes são vendedores ambulantes, pescadores, estivadores, gente que ganha pouco. Além do mais a concorrência aqui na rua é grande. Só que eu tenho conhecimento são umas 40 mulheres. Por isso não podemos cobrar mais do que isso", explica dona Lindomar Vieira, 53 anos, dona de um dos  casarões no local.

O dinheiro que ganha durante o mês mal dar para manter sua alimentação e pagar o aluguel do quarto onde mora. "Sou a única daqui da rua que não mora no casarão onde trabalho. Pego dois ônibus todo dia para chegar aqui, mas mesmo assim não me arrependo. Esse lugar aqui é apenas para trabalho. Não aguentaria morar na mesma casa onde vendo o meu corpo", diz.

A beleza de Mariana chama a atenção de quem passa pela rua. Ela é uma das mais procuradas para fazer programa. O que já lhe rendeu inúmeras brigas com outras mulheres do local. "Tem muita gente aqui que tem inveja de mim. Já fui até ameaçada de morte. Mas tenho fé que não vai acontecer nada. Conto os dias para sair daqui. E eu vou sair.", afirma a jovem.

3 comentários:

Michele P. disse...

Adison

Texto digno do profissional que você é. Uma belíssima crônica com teor jornalístico, baseada em fatos que se repetem pelas vielas do nosso Brasil.
Quantas Marianas não estão por aí, perdidas, sem ter que as abrigue e alimente sem que tenham que vender o corpo?!

Um abraço,
Michele

Gleidson Gomes disse...

Primeiro achei que era um conto.
Depois pensei que era uma reportagem.
Por fim acho que entendi que é conto-reportagem.
Mas no fundo sinto que é a mais pura e boa literatura.

Muito bom César!

Mirian Oliveira disse...

Muito bom o texto!!

Realmente somos traídos pelos nossos sonhos, e esses nos levam a caminhos inimaginaveis...

Adorei o texto!!!