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sábado, 27 de agosto de 2011

O DUENDE

Assim como quem já não esperasse mais nada, passo a passo mais desiludido – dentro, no fundo -, e vagasse meio cego e tonto pelas vielas de lixo e merda, sufocado pela decadência exposta em cada esquina da cidade que, de tanta chuva e sol e vento, foi deteriorando-se, rachaduras e limo nas paredes, emoções. Ele caminhava disperso em meio aos dias, encarando de frente mas sempre com certo medo o mundo fora da noite da qual ele vinha, estava, para além da solidão que lhe acompanhava.

Assim como quem já perdeu tudo, as mãos vazias de qualquer sentido (dedos amarelos, olhos vermelhos), apenas um incômodo profundo no peito sem explicação para ele. Não chegava a ser dor, só incômodo, alimentado fartamente com o vazio dos dias, vazio que ele mesmo por tanto tempo (na verdade, não passavam de duas décadas, mas para ele, dentro, eram séculos acumulados, vividos) cuidou e guardou como cuida-se com ternura e guarda-se com carinho um amor (mesmo ele ainda não sabendo o que é o amor!). Ele olhava-se no espelho, nu, os pelos eriçados, o sexo murcho, aquele ar de tristeza que dizia ser hereditário, e não reconhecia-se, estranhava-se e sentia que estava, ainda, vagando entre ele e ele mesmo, perdido em meio a muito lixo, rachaduras, emoções e merda, como quem vagasse pelas ruas da cidade.

E tentava chorar sem conseguir, o engasgo das lágrimas ausentes impedindo-lhe de respirar, de dizer, e desesperava ao descobrir (porque para ele cada descoberta sobre si mesmo era um pequeno desespero) que sem perceber deixou-se ir secando como flor ou fruto, apagando o brilho, como se estivesse num eterno outono, folhas secas no asfalto, de tão exposto ao sol, à chuva, ao vento, sem nunca ou quase nunca regar-se, podar, conversar consigo, com outros iguais.

Assim como quem vem de qualquer lugar muito distante e vai para lugar nenhum desconhecido, sem aperceber-se do perfume de jasmim lá fora no jardim - sem aperceber-se que era um jardim -, insistindo inconscientemente em desconhecer-se, olhos e coração fechados, o corpo já curvado do fardo de ser assim, a alma um pouco pesada de tanto entulho espalhado, poeira e mofo; mágoas, dores, raivas boiando pelo chão alagado de lágrimas e lama, o ralo entupido, diluídas nos risos opacos de bom dia, gestos superficiais de afeto – formalidades cotidianas.

Assim ele caminha noturno pelas ruas escuras, iguais embrulhados em papelões pelas calçadas, ele talvez também encolhido num canto. O vento soprando forte e ruidoso compondo uma música soturna com o farfalhar das mangueiras, uma lua nova iluminando seu rosto triste, ele descendo a passos largos a Carlos Gomes, o incômodo agora identificado como um enjoo no estômago, uma intensa e constante vontade de vomitar sem conseguir. Já não se sentindo, estranhamente, tão só como antes, horas atrás, a noite se adensando sobre seu corpo, sem medo: pega a chave verde, abre o portão, sobe a escada, atravessa o corredor, gira a chave vermelha na fechadura da porta, entra, um bafo quente estapeia seu rosto, acende a lâmpada e, de repente.

De repente ele pensa que errou o caminho de volta, entrou na casa de um desconhecido, um pouco assustado com as paredes claras e limpas, o perfume de jasmim pairando pelo ar. Então entra em seu quarto e percebe que tudo está em seu lugar porém, ao mesmo tempo, tudo está mudado. Distraído, segue o perfume adocicado de jasmim - não tinha percebido que o outono já passara e o jasmineiro estava florido (pequenas flores brancas reluzindo na noite). Ainda é noite, mas sentia já a brisa morna do amanhecer, o sol nascendo dentro dele, aproxima-se da janela e.

E, por mais que não fosse, era assim como a primeira vez. Olha com mais atenção para além da janela, os olhos levemente umedecidos. E com certo espanto, apesar de toda calma que o tomava, vê no meio do jardim, colorido, sorridente e complacente (e agora percebe que ele também o olha lá de fora), ele olha e vê: um duende. A tristeza desfaz-se no rosto dele e, subitamente leve, ele então sorri iluminado e vivo e desarma-se contra o amor.

Um comentário:

Átila Goyaz disse...

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