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sábado, 6 de agosto de 2011

A manga

Porque ainda não se sabia, gostava de caminhar pelas ruas de Belém. E isso não significa que ele agora se saiba, apenas talvez um passo tenha sido dado. Um passo ou nada, porque quando se trata desse existir de dentro não há muita precisão. Por vezes o que achou ser um caminho era somente ilusão. E ao caminhar, meio inconscientemente ele ia se percebendo assim: procurando.

Caminhava então, querendo que aquelas ruas o levassem onde ele estava. E as pessoas com quem encontrava e conversava imaginava guias que lhe ensinariam o caminho. Mas elas, porém, quase sempre eram tão noturnas quanto ele, mesmo sob uma incrível manhã de céu azul. Complacente, ele ia narrando-as para si mesmo, como para sabê-las fora de dentro dele.

Belém era um lugar qualquer, talvez nem existisse de verdade, a não ser em sua imaginação. Parecia perdida em algum lugar no tempo, como um suvenir europeu esquecido no meio do mato. As ruas de lama e lixo por vezes o excitavam, quando estava distraído. Mas era na solidão que pensava ao subir a Presidente Vargas lotada num dia comum.

Quase chorava ao ver a chuva se aproximar da cidade, vindo por cima do rio. Era tão triste e belo ver Belém sob a chuva que imaginava sua vida assim: triste e bela como Belém sob a chuva. E porque era triste e ainda não se sabia, caminhava pelas ruas da cidade até o anoitecer. À noite sentia um certo desespero, pensando ter deixado seu interior extravasar pelas calçadas, sob as mangueiras, distraído que era. Ao mesmo tempo dava-lhe um certo conforto perceber que não estava sozinho, a cidade toda anoitecida, como ele sempre esteve.

Então procurava-se pelas vielas de merda e mijo, prazeres sujos expostos nas esquinas. Aquilo também despertava seu desejo, quando ainda queria-se para fora. E encontrava outros seres anoitecidos que nem ele, e os narrava como para sentir que era real, e não mais uma ilusão sua. Aí, porém, a vida lhe doía um pouco mais, porque era a vontade de amor que lhe rasgava o peito quando fazia-se sombra e gemido, entregando-se a desconhecidos pelos bancos, escadas e coretos da praça da República.

Em uma tarde de julho, no entanto, o inesperado aconteceu. A cidade e ele ermos. Ele subia a Nazaré, sob o túnel de mangueiras. De repente, ouviu um estalar de galhos e seu coração acelerou. Quase desmaiou. Seu instinto o fez levar as mãos à cabeça e fechar os olhos com força esperando a dor. Talvez tivesse dito um ai, impulsivo. Sentiu o vento vertical riscar-lhe o rosto, seguido do som seco. Ainda esperou. A manga amarela caiu bem próximo dele, na sua frente.

Respirou um pouco aliviado, recuperando-se do susto. O coração voltava a bater no ritmo lento de sempre. Retirou as mãos da cabeça e levou-as ao peito. Estava inteiro, sorriu. Porém, quando ele abriu os olhos, espantou-se e teve um medo maior do que o anterior. Ao abrir os olhos, naquele momento, foi como se acordasse de um sono profundo ou como se os abrisse pela primeira vez. Parado, naquela calçada, sozinho na cidade, ele abriu os olhos e descobriu que estava: vivo.

7 comentários:

Átila Goyaz disse...

O domingo faz isso com a gente mesmo, não sabemos em que plano realmente estamos. Bjus!

Michele P. disse...

Gleidson

Complexo e intrigante... Reli o texto para extrair dele a essência e estou com a sensação de que qualquer comentário meu, será simplista diante da beleza com que ele foi construído.

Um abraço!

Michele P. disse...

A propósito: quem alterou o layout do blog? Ficou lindo... adorei!

Eraldo Paulino disse...

Acho que a Pê definiu muito bem: complexo e intrigante. E vê se ajeita direito tuas postagens pra elas não saírem depois das do Àtila rsr


Bjs!

Gleidson Gomes disse...

Valeu meus caros!

E Eraldo, eu tinha postado depois dele mesmo!
Tava sem net no sábado.

Adison César Ferreira disse...

Belém é sempre inspiradora, se o autor tiver muita sensibilidade então... dá nisto aqui. Belo texto com sabor de manga!!

Marcos Montanhês disse...

Se caisse na cabeça ele estaria vivo e com um galo, rs.