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sábado, 20 de agosto de 2011

Flor e noite

Uma manga madura batida no asfalto. Meu coração está assim, como uma manga esparramada no meio da pista, apodrecendo. E o pior é que nem é primavera. Dentro de mim é sempre inverno, sempre noite. Noite fria, de chuva, como esta de agora. Eu sou uma noite fria de chuva, é isso que quero dizer. Por isso me identifico tanto com esta cidade estranha, sempre chuvosa, mesmo no verão.

Gosto daqui por isso: a chuva da tarde lavando a sujeira dos dias, os rios barrentos deitados no horizonte, estas mangueiras antigas como velhas vetustas caminhando lentamente para a morte. Gosto do mistério escondido no fundo dos rios. Quando olho para as águas dos rios, penso sempre que são como pessoas: profundas e misteriosas. Eu me sinto assim como as águas de um desses rios (ela quase transborda, me encara como se estivesse naufragando, porém mantêm-se firme, copo cheio na mão, cigarro entre os dedos).

Sei que deves estar me achando meio louca, bêbada mesmo, mas sei também que gostas de me ouvir, que gostas de mim, não gostas? Por isso falo dessas coisas contigo, dessas coisas difíceis que carrego aqui dentro. Tu também é que nem eu, sente assim que nem eu sinto, tu és um rio e também estás aprendendo a nadar. Mas dói tanto, não dói? Viver dói, mas não há para onde correr, não é? Morrer leva tempo e suicídio está fora de moda. O jeito é continuar, mesmo triste, cansada, sozinha, o jeito é prosseguir mesmo sem rumo: barco ébrio, para ser poética (gargalha com tanta força que seu corpo todo estremece, dá um gole teatral em sua cerveja).

Estás sentindo este cheiro? É lama. Não, não esta dos bueiros: é a minha lama. É só o que tenho e vejo: l-a-m-a. Mas isso não me incomoda não. Eu gosto de chafurdar nela, de estar nela, ser ela. E não me vem com esses papos de luz, de paz, amor, isso não cola pra mim, entende? Eu sou triste, eu sei, mas eu gosto de ser assim. A vida não me ensinou a ser senão triste. E isso de amor é mentira. Eu só acredito no prazer, por mais que ele às vezes seja tão escroto quanto a solidão. Amar dá trabalho, cansa, enjoa, mesmo variando de sexo. E eu não tenho vocação para essa felicidade instantânea, esse amor fast food que muita gente carrega, como um suvenir comprado em um shopping. Se for para ser assim, prefiro comprar um amor a cada noite em qualquer esquina, é tão mais verdadeiro por se saber vendido, carne e desejo.

(dá a última tragada no cigarro, fica séria de repente, visivelmente embriagada) Mas lá no fundo tudo é bem diferente, eu sei disso. Falo, falo, falo mas é tudo medo de chegar lá onde sei que estou de verdade. Eu tenho medo da beleza que é estar viva, por isso me maldigo tanto. Tu entendes, não entendes? Eu tenho medo de saber que posso ser feliz, de descobrir que tudo isso não passa de uma louca ilusão e que, no fim, toda essa tristeza e toda essa dor são apenas adereços que eu uso para me sentir mais viva e interessante. As pessoas não suportam quem é simplesmente feliz, porque a maioria delas é quase sempre cinza. Por isso me faço assim, triste e amarga, como um filme do Bergman (gargalha novamente, debochando de si mesma).

Olha, já está quase amanhecendo. Não quero chegar em casa de manhã, senão durmo demais e quando acordo fico meio perdida, a vida toda sem sentido nenhum, completamente desorientada. O meu perfume é para ser exalado só durante a noite, igual à dama da noite. Não, não a do conto, a flor mesmo. Tem um pé num muro próximo de casa. Já viste como ela é? Linda, branca, enorme. O cheiro é um pouco adocicado demais, me dá náusea. Pela manhã ela murcha um pouco e só volta a perfumar de novo à noite. E é o que sou, não é? Flor e noite, flor da noite, sempre relutando em amanhecer.

2 comentários:

Marcos Montanhês disse...

Luz ou cheiro, o que vale é emanar. Lindo texto.

Adison César Ferreira disse...

Gostei desse ar de antítese na personagem. O texto é provocador.
Arrazou!!