Conteúdo adulto

sábado, 16 de julho de 2011

Sinal vermelho

(a mão direita semi-fechada, leva-a até o nariz e respira fundo. Olha para o nada, sorri): eu faço malabarismos nas esquinas e sinais com minhas emoções, mágoas, medos. Tento ganhar um trocado de compaixão, compreensão, um sorriso de afeto que me aqueça. Já não tenho nada assim maltrapilho de sonhos, fedendo a esperanças mortas, o corpo magro coberto pela sujeira das desilusões. Só tenho fome de carinho, amor eu acho, tenho fome da companhia de alguém que me ouça, me entenda, que me ajude a compreender esse sem sentido dentro de mim, segure a minha mão e me guie por esses caminhos obscuros tão meus mas, ao mesmo tempo, desconhecidos, estranhos. Tenho fome de um colo que me embale e me ajude a esquecer esta dor cotidiana de estar vivo – seja lá o que isso signifique, se é que significa alguma coisa! -, de existir tão grande aqui dentro e, fora, me perder em palavras banais, gestos descompassados que, no fundo, sempre no fundo, dizem muita coisa de mim mesmo sem conseguir dizer nada, nestas gargalhadas coloridas e descontroladas que escondem perfeitamente a paisagem cinza opaca que trago no peito há tempos e não sei dizer ao certo por quê (de novo a mão no nariz, a respiração funda, o nada, o sorriso).

Sei lá, não lembro. Não, não adianta insistir. Não me pergunte como eu cheguei aqui porque eu não sei explicar. Não sei como vim parar aqui nesta calçada nem como vou parar nas outras, ninguém sabe. Os outros também não sabem como vieram, simplesmente chegaram e ficaram. Do que te importa isto? Não sei como cheguei aqui, não sei porque estou seminu e cheirando cola para tentar esquecer destas fomes que te falei há pouco. Não sei como vim parar entre tantos saltos-altos, meias-calças, sapatos sociais, ternos, blazers, maquiagens, chapinhas, plásticas, caras lisas de barbas bem feitas, entre estas carnes brancas que, de tão perfumadas, fedem à desprezo esnobismo egoísmo assim tudo junto, de uma só vez. Estas carnes malhadas e protegidas contra o sol que, bem lá no fundo onde elas nunca se deram ou darão o trabalho de chegar, fedem muito mais do que eu – eu que até já esqueci a sensação da água acariciando a minha pele, agora mais escura de tanto sol, o mesmo do qual elas estão protegidas, encrostada desta lama que eu visto por baixo do meu short velho e esfarrapado. Carnes brancas que mesmo assim de longe, quando se desviam do meu olhar creio que meio vazio, um pouco sem vida de anestesia, liga, viagem, tristeza, eu sei que são tão frias quanto as noites que passo aqui, entre meus iguais, irmãos, pais, deitado sobre os jornais de mentiras que tu todo dia escreves, embrulhado em papelões de fantasias perdidas, alegrias esquecidas por tantas baforadas de cola...( os mesmos gestos e reações) Me dá um real aí tio?

Estás vendo estes dentes claros de mastigar bons alimentos, nestes sorrisos falsos de bocas politicamente corretas? (aponta com um dedo ferido, a unha grande preta de sujo por baixo) são tão diferentes dos meus cariados da falta do que comer, doloridos de morderem nada todos os dias. Mas eu sei que estas bocas cheias de bondade ao falar são mais podres do que estes bueiros aqui ó e no interior dos seres que têm estas bocas há tantos ratos e baratas e lixo e lama quanto dentro destes esgotos e estes seres me enjoam mais o estômago do que os bueiros. O que é, nunca me viu? Sua velha enrugada de avareza. (dá três baforadas seguidas) Queres experimentar tio?

(gargalha descontroladamente) Não consigo não achar graça de quem tem medo da minha desgraça, quem finge que não vê minha felicidade roubada, quem nega a existência desse vazio que eu sou – que tenho dentro, estou cheio – porque todos vocês têm um igual ao meu, têm um eu dentro de cada um de vocês, inclusive tu aí, que fica me perguntando estas coisas chatas, enchendo meu saco com esta cara de pena, me olhando como se fosse me ajudar mas, no fundo – bem lá no fundo onde tu tens um escuro que nem o meu, e tu és igual a mim, todo mundo é – não vai fazer nada, porque vais me esquecer na próxima curva de uma puta, entre as palavras vendidas que escreveres amanhã, no próximo copo da tua cerveja sagrada de todo fim de semana, no primeiro pega do primeiro cigarrinho de maconha que tu fumares lá na República com teus amiguinhos de preto metidos a tristes e rebeldes, ou então quando sentares na tua poltrona preferida num desses cineminhas alternativos que tu gostas de freqüentar nesta cidade de merda quente suja fedorenta. Não precisa te explicares, nem tentar esconder teu constrangimento, é sempre assim, já estou acostumado. Do que me importa saber se vou estar amanhã nas páginas de um destes jornais do caralho, para mim eles só servem para forrar o chão e limpar meu cu depois que eu cago, só para isso (a mão, o nariz, olhos revirados, a alegria repentina e calma).

Não, não sei quando eu nasci, vivo o tempo, só isso, não preciso contar ele como tu e todo o resto, porque o tempo não significa nada para mim. Não, não lembro quantos anos eu tenho, mas acho que mesmo assim sujo jogado drogado e esquecido, acho que eu ainda sou uma criança.

3 comentários:

Marcos Montanhês disse...

O parquinho público de chão de areia e poeira com bingas de cigarro deterioradas, pregos enferrujados e lascas de cimento. A mangueira no final da rua, com algumas poucas mangas, cheia de ervas daninhas. As pombas ainda caçando comida, os pardais quietos ao pôr do sol, e o menino sujo sem uma casa para voltar depois das sérias brincadeiras de mais um dia. Samsara.

Michele P. disse...

Olá Gleidson!

Bem vindo ao grupo!
Com relação ao texto... adorei a construção e a maneira autêntica como o estruturou.

Um abraço de boas-vindas!

Gleidson Gomes disse...

Oi Michele, obrigado pelas boas-vindas, estamos juntos!