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segunda-feira, 18 de julho de 2011

Seminário

Publicado originalmente em 06/08/10 no blog Eraldo e suas paulinisses

Seminário

Pela primeira vez em dias, os seminaristas tem oportunidade de ficarem a sós. Longe do reitor, que saiu mas não demora, o líder deles convoca a todos para uma reunião de emergência. Em menos de cinco minutos todos estavam lá. Alguns contrariados porque preferiam estar usando o telefone do seminário para ligar pra namorada, outros que gostariam de ficar olhando mulher pelada na internet, mas, sem exceção, todos os dez moradores atuais da casa compareceram. Sabendo que não tinham muito tempo, assim que o último seminarista chega à sala de reuniões, a reunião começa.

- Antes de começarmos, gostaria de dizer que este assunto não deve sair daqui. Eu estou monitorando quando padre chega por esse monitor do circuito interno de segurança e[fala logo o que tu qué, rapá!]...

- Tá. O negócio é o seguinte: eu fiquei responsável pela limpeza do quarto do reitor ontem, como vocês sabem. E eu encontrei uma camisinha usada no lixeiro. Depois disso eu pensei e pensei, e cheguei a conclusão de que não há uma outra possibilidade que não à do padre tá pegado alguém daqui lá, porque ontem ninguém além de nós entrou aqui.

Sim... tu não acha que o padre pode ter usado a camisinha pra bater punheta? Não lembra que todos nós entramos aqui só depois de ele perguntar "qual seria o nosso refúgio?"... esse padre só pode ser um punheteiro.

- É.. eu pensei nessa possibilidade também, mas acho que o reitor não tem mais idade de fazer isso. Acho que ele comeu ou tá comendo alguém daqui.

- E por que tu acha que alguém aqui revelaria alguma coisa? Tu tá ficando doido?

- Bom, porque vocês sabem que eu sou meio espião, né? Quando eu quero saber de uma coisa, eu dificilmente não descubro. Por isso, como minha curiosidade transborda pelos poros e eu estou numa semana boa, eu quero dizer que aquele que se confessar comido pelo pau santo do padre, vai ter meu sigilo. Maaaas... se eu descobrir só, todas as madrinhas do seminário vão saber no mesmo dia.

Tu é um fresco mesmo, seu filho da puta. Pensa que eu não sei que tu dava o cu pro p[vai te fuder, veado]adre.

- Ah, quer saber? Eu vou pro meu quarto estudar o que é.
- Té parece que eu não sei que tu vai ficar olhando mulher nua na net[Fresco].
- Bom, eu confesso que to morrendo de curiosidade pra saber quem teve coragem de dar pra esse padre feio que só a porra.

A discussão continuava. Todo mundo falava alguma coisa, ou pelo menos ria. Menos um rapaz, que tinha quase 19 anos e chegara há menos de dois meses ao seminário. Os seminaristas mais veteranos estavam tão acostumados a não ouvir a voz dele que nem repararam que ele era o único que não ria, não reclamava, e nem ao menos olhava nos olhos de ninguém. De repente, o seminarista que propôs a conversa também pára de falar e passa a fitar os olhos do novato. Lágrimas. Quando a primeira se esparrama no assoalho, a certeza enxuta brota imediatamente no lugar.

Um a um, todos os outros seminaristas foram parando de rir, ou xingar. Os lábios esticados, lentamente, vão dando lugar a uma expressão sisuda e espantada ao mesmo tempo. Não era preciso mais perguntar nada. Inclusive, tudo o que os seminaristas não sabiam era como lidar com aquilo. Quando as lágrimas descortinaram a vista do novato, e ele percebeu que todos perceberam, tudo o que estava preso nele (o que quer que fosse) passou a desabar como cachoeira em sua fronte. Ele era o maior em estatura ali, tinha um rosto grave e imponente, que, somado ao estilo sereno desencorajava até mesmo o mais atirado dos seminaristas a tirar brincadeira com ele. Naquele momento, todo o sentimento que eles nem imaginavam que ele pudesse sentir era escancarado entre o contorcer de ombros e o soluçar da boca.

Em silêncio, todos olham o carro do reitor estacionando no patio. Com o ar de "o que foi que fizemos?" cada um se desloca para os devidos lugares sem falar nada. O único a correr é o novato, que se tranca no quarto. O padre chega. No dia seguinte, o novato sai. Nas semanas seguintes, poucas piadas. "Finalmente esse povo tá se ajeitando", deve ter pensado o padre.

4 comentários:

Marcos Montanhês disse...

Tenso, Eraldo. Comoveu-me.

Michele P. disse...

Poderia ser só ficção, mas acontece nos melhores seminários.

Gleidson Gomes disse...

Muito bem escrito!
Verdadeiro e sensível!

Abs

Átila Goyaz disse...

tadinho do novato, pô, não custava nada o pessoal ficar de bico calado?

Eraldo, imputável desde sempre!