Conteúdo adulto

domingo, 31 de julho de 2011

O Terceiro Domingo

Autor: Gato de Cheshire

Domingo 1

Com a cara ainda ressaqueada da noite anterior Junior abria a porta para Beatriz. A verdade é que ele odiava receber a irmã em casa, menos ainda num domingo de manhã. Quando se encontravam fora de sua casa conversavam sobre amenidades, lembravam de coisas agradáveis e trocavam notícias. Quando ela ia visita-lo sempre caia num assunto que muito o desagradava. Após as visitas, em geral, não dormia bem à noite e houve até uma vez que voltou a fumar depois de dois meses parado.

Os irmãos eram opostos, Beatriz era mais velha, 34 anos, católica, dona de casa, mãe de dois filhos, casado com um militar linha dura. Em geral usava saias um pouco à cima do joelho, uma maquiagem leve, roupas em tom pastel, um salto não muito alto e um elegante colar de pérolas. Ele tinha 27, homossexual assumido, marketeiro, ganhava bem e tinha uma vida de excessos. A relação mais longa que teve durou cinco meses, poucas vezes transava mais de uma vez com o mesmo homem, gostava da liberdade e tinha uma peculiaridade. Gostava de heteros, em especial os casados... Delirava com os homofóbicos... A melhor foda da sua vida tinha sido com um cara conhecido por bater em travesti nas madrugadas... Na cama tomou uns sacodes e nunca mais esqueceu daquele pau enorme entalado na sua garganta.

Desde a morte dos pais, Beatriz tomou pra si a responsabilidade de cuidar do irmão. Tinha menos contato do que gostaria. O marido não gostava do rapaz e nem o rapaz do marido. Para Junior os natais eram um sacrilégio, ia pela irmã, e alfinetava o cunhado noite inteira. Nem pros sobrinhos dava muita atenção, comprava alguns bons e caros presentes, mas nunca teve muita paciência com criança. O cunhado também evitava ele por perto dos gêmeos, se tratava de um influencia nada positiva.

Por todos esses motivos eventualmente era Beatriz que ia a sua casa e quase sempre falava sobre o maldito futuro. Da necessidade dele construir uma relação sólida, de ter um parceiro fixo, alguém que vá cuidar dele na velhice, assuntos pra lá de desagradáveis. Fazia muita força pra um amigo que fez no tennis, um bom partido, com um sorriso safado e que frequentava a mesma boate de Junior. Ele sabia de quem se tratava, mas o fato é que mesmo não sendo afeminado o cara era gay. Gostava de música clássica, filme europeu e culinária, eram muitos “contras”... Era verdade que ele até poderia relevar algumas coisas se não fosse um detalhe... O jeito que o cara atendia o celular... Era um detalhe, uma bobagem.. Ele olhava o aparelho, apertava o send e dava uma quebrada com a mão pra traz antes de levar ao ouvido. E olha... Aquela quebradinha de mão definitivamente era muito mais que beleza, inteligência, estabilidade ou qualquer outro predicado que o rapaz poderia ter.

Naquela manha de domingo Beatriz estava diferente, havia algo de distante nela. Preparou um café amargo e ficou sentada no sofá de frente pra cama enquanto Junior ainda de cueca e despenteado ia despertando em meio a travesseiros e edredom.

Dizia ser portadora de duas notícias desagradáveis. Ele já fez uma cara de “novidade” e acendeu um cigarro. Nessa hora Beatriz falou sobre a morte de Tia Eleonora na quarta feira da semana anterior. Tia Leó, era bem mais velha que a mãe deles e sempre fora uma referencia de elegância na família. Porra louca toda vida, não teve filhos e explorou dos seus amantes ricos enquanto pode. Para Junior sempre fora uma referencia. Pouco antes da morte da mãe deles chegou há morar um tempo em suas casas por estar doente. Junior com seus 15 anos, adorava ouvir as suas historias, de como fazia com seus amantes, de tudo que viajou, das pessoas e lugares incríveis que conheceu. Com a morte da mãe deles, Beatriz, já noiva, não teve condição de cuidar da tia e do irmão e mandou ela para um asilo. Tia Léo era exemplo constante de Beatriz para o Junior, já haviam três anos, que ambos em função da correria não conseguiam visita-la. A morte foi comunicada pelo asilo, ela não conseguiu se contatar com o irmão e estava envolvida com a festa de comemoração da subida de patente do marido. No fim da semana foi ao local e agiu toda burocracia. Ela já estava enterrada e reza a lenda que não havia mais que três funcionários do asilo no momento do enterro.

Junior se indignou, achou um absurdo que Beatriz não tenha ido ou não tenha se empenhado mais em informa-lo e enquanto esgoelava percebia Beatriz quieta, como não é o de costume. Quando questionou o motivo, ela bebeu um longo gole de café e a queima-roupa disse: Eu estou com câncer.

Junior ficou paralisado... Mais ainda quando ela anunciou a metástase... Não mais que quatro meses. Ainda sem reação a irmã segurou em sua mão e disse do quanto estava pronta, do quanto aquilo estava bem resolvido na sua cabeça e que queria apenas deixar as coisas acertas... Junior era sua maior preocupação, a irmã implorava para que ele pelo menos tentasse, pelo menos se permitisse. Se não fosse Paulo Arthur (o amigo do tennis) que fosse qualquer outra pessoa em que ele visse a possibilidade, mas que fosse logo, por que ela queria ter a alegria de poder vê-lo com alguém antes de partir.

O narrador precisa dizer que o personagem não dormiu naquela noite??? Muito café, muito cigarro, muita insônia. Beatriz era a única referencia da caótica vida de Junior e o pedido de alguém que está à beira da morte é de um peso que não se mensura.

Junior não trabalhava direito, não comia, não dormia. Foi na quarta feira que finalmente ele se rendeu. Com um bloco de papel na mão, uma caneta e o celular, começava a listar possíveis candidatos e o mais possível era Marco Antônio. Pelo menos era alguém que, mesmo que esporadicamente, ele já transava há três anos e deu indícios de querer avançar. Marco Antônio era taxista da porta da boate que Junior sempre ia e se engana quem pensa que todos gays chupavam pra pagar a corrida... Era exclusividade dele... Marco era doido na boquinha carnudinha, rosinha e quente DELE... Exclusivamente dele, sem falar da bundinha empinada. Era um dos poucos homens com quem ele tinha se relacionado. Há aproximadamente dois meses o taxista gostoso falou que estava se divorciando da mulher e se apartamento ali pelo centro era tão caro como todo mundo falava, se o Junior conhecia alguém disposto a dividir com um homem solteiro. Claro que ele entendeu o recado, claro que se fez de bobo e claro que era a hora oportuna pra correr atrás do prejuízo.

Duas oras depois da ligação feita ambos já tinham gozados e estavam abraçados na cama de Junior, quando ele começou a relatar seu interesse em que ele viesse morar ali. Marco ficou surpreso e dizia que talvez não pudesse dividir aquele apartamento que deveria ser caro. Todavia não demorou a entender que seria bancado e que só precisava ser o macho alpha dentro de casa. Entendeu, gostou e não se fez de rogado, só deixou claro que não deixaria de ter mulheres e pronto... Acordo feito!!!

Os dias subsequentes foram ótimos, dividir poderia não ser tão ruim quanto parecia. Marco trabalhava muito e mal parava em casa. Junior estava amando ser “a esposa”... Cozinhava pro marido, arrumava as coisas dele e enlouquecia lavando a roupa. Adorava o cheiro da blusa suada, às vezes misturado com perfume barato de mulher. As cuecas sempre tinham um esbranquiçado de porra, misturado com algumas gotinhas secas de mijo. Junior antes de lavar batia punheta cheirando elas. E que vigor tinha aquele homem... Eram todos os dias e a todo momento.

Já no sábado recebeu Beatriz em casa, a irmã se permitiu tomar um vinho e ficou até meio altinha como há muito tempo não ficava. Falaram sobre as músicas do Roberto Carlos (que os dois cunhados eram fãs), sobre a infância do Junior (com diversas fotos levadas por Beatriz), sobre o oficio de taxista. Antes de ir embora, Beatriz abraçou o irmão agradecida e com lágrimas nos olhos disse: Ele é um bom homem.

No fundo Junior não sabia se permaneceria nessa empreitada ou se manteria apenas enquanto a irmã tivesse vida. Fez por ela, mas a morte de Tia Léo e o fim de Beatriz fez com que ele de fato considerasse bem a possibilidade. Pela primeira vez ele teve medo da solidão, muito medo, pavor. E em meio aos fortes braços de Marco Antônio, com o rosto encostado no seu peito peludo sentiu-se aliviado.

Domingo 2

Marco Antônio fora passar o dia com a família e Junior aproveitou pra arrumar algumas coisas, adiantar alguns trabalhos, no fim de tarde chupou alguns paus no banheiro do shopping e a noite estava pronto pra outra. Marco voltou diferente da rua... Quieto, distante... Foi no terceiro questionamento de Junior que o gigante desabou. Chorava de soluçar, saudade dos filhos... Em especial a mais nova que era muito apegada com ele. Junior, que nunca soube lidar muito bem com emoções, não sabia o que dizer. O gigante deitou com a cabeça no seu colo e ele olhava pra ela como se fosse um porco espinho. Não sabia como agir, como pegar.. Queria tirar, mas tinha medo de se espetar. Ele de tanto chorar, dormiu.

No outro dia pela manha era a vez de Junior ficar estranho, mas não podia responder o motivo, por que ele mesmo não sabia descrever. Tentando descontrair Marco contava que a filha está com medo de morcego, assim como ele. Junior arregalou o olho e reforçou: Vc tem medo de morcego?

Sim, ele tinha e explicava que quando tinha cinco anos foi atacado por um, o que gerou um trauma. No trabalho Junior estava irritadiço e só vinha a sua cabeça a imagem do macho chorão. Se sentia enganado, achava que o homem comia marimbondo e ele tem trauma de morcego. Poderia jurar que o cara se quer sabia o que era trauma. As coisas já não eram a mesma. Ao chegar a casa não lavou a roupa, não bateu punheta, pediu comida no delivery. A conversa estava estranha, enviesada... Nada de sexo naquela noite, nem na seguinte... E foi na quarta que a trágica noticia da morte de Beatriz chegou por um telefonema a Junior. Durante o enterro ele não abriu a boca. Em casa Idem...

Deitado na cama via Marco Antônio lavar sua própria roupa e fazer comida pra ele. Não comia... Não queria... Não podia.

Domingo 3

Da cozinha Marco Antônio gritava para que Junior fosse ver algo. Após muita insistência ele levantou preguiçoso e encontrou o companheiro com um jeans, sem camisa e de avental. Deu uma rodada, perguntou se Junior gostou do traje e que hoje ele seria o chefe. Junior não dava uma palavra e permanecia muito serio. Marco não entendeu a reação e perguntava o que aconteceu. Quando chegou perto levou um estalado tapa na cara junto com um grito: Viadinho.. Seu viadinho de merda.

Marco ficou paralisado e Junior gritava: Me bate, vai.. Reage... Mostra que você é homem, que tem brio, Seu Merda... Quebra a minha cara.

Com os olhos cheios de lágrimas Marco Antônio disse: Eu te entendo, mas não vou fazer isso, sabe por que?

Nesse momento, Junior saiu correndo da cozinha dizendo querer não saber e Marco o perseguia pela casa disposto a contar. Junior se trancou no quarto enquanto Marco batia insistentemente na porta e gritava que não batia nele por que o amava.

Marco deve ter ficado mais ou menos 2 horas na porta, sentado, batendo e implorando pra que ele abrisse. Até a hora que finalmente meteu o pé. E o encontrou enforcado com uma foto da tia de visom e um bilhete em cima da cama que dizia:

“Entre a solidão e a morte fiquei com a segunda opção. Prefiro isso a ter de ser condenado há homens que vão além de um conto erótico.”

Confiram o Blog do autor clicando AQUI.

3 comentários:

Gleidson Gomes disse...

É-G-U-A!
Estou meio sem fôlego!
Que personagens lindos, Átila: densos, demasiadamente humanos!
Que narrativa deliciosa, envolvente, excitante.
Me fez ler como quem deseja ardentemente.
E que final é este? Maravilhoso!
Boa literatura pra mim é isso: a que me faz sentir a história, vivê-la! As palavras vivas pulsando dentro de mim!
Fazes jus ao endereço do teu blog: fui iluminado!
E que inveja de ti por eu mesmo não ter escrito este conto! rs

Bjos encantados

Átila Goyaz disse...

Pois é amigo, este conto é do Hugo, blogueiro e meu amigo íntimo, ele me disse que tinha uma história picante; então eu publiquei.
Não sei se você prestou atenção, o conto não é meu.
Beijos.

Gleidson Gomes disse...

Obrigado pelo esclaricemento!
Na minha louca cabeça, o nome do autor era só um pseudônimo teu! rs
Enfim, se possível, repassa pro teu amigo minhas considerações sobre o conto!

Bjos