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quinta-feira, 14 de julho de 2011

Lama na boca da semente

Tinha o dom de se alimentar de sujeira, ajudando o mundo a se limpar dos ilusórios vestígios da morte. Nascera assim? perguntou-se com suspeita. Alguém lhe dissera isso certa vez, e se identificara com alguma relutância. Essa metáfora sobre a característica atração pelo que alguns consideram sujo ainda que a eles também seja inerente. Buscar o que muitos evitam, mergulhar de boca na lama. Ser semente que não receia adentrar na escuridão do solo se necessário for.

Achou que sim. Devia ser mesmo a sua energia, a sua síntese, a sua fornada.

Lembrou-se do outro dom, o de buscar alternativas entrando em novas dimensões. Esse era seu dom mais cósmico, mais abrangente e mais comum. Mais o meio que a ferramenta.

Desejou apenas o amor, pois era tudo o que importava naquele momento. Não importava que fosse limpo ou sujo, na lama ou na cama, desde que fosse verdadeiro. Necessitava de um amor sincero.

Novamente desejou sexo. Pensou na fechadura que completava a sua chave e na chave que completava a sua fechadura, e nos seres que as carregavam. Pensou se não deveria ser só chave ou só fechadura para facilitar. Não quis mais pensar nisso, e então ficou sem saber no que pensar.

Aguentando, não aguentava mais a dúvida. Sentiu uma vergonha estranha por ser o que era. Lembrou-se do que os amigos haviam lhe dito e quis olhar para o espelho, mas não olhou. Sabia que veria o ser que come carniça, o urubu de olhos precisos. Acalmou-se por se encaixar novamente em alguma definição.

Tinha calma agora. Sentia-se responsável pelo que se propusera a ser. Responsável por ser responsável. Finalmente não viu suas colunas de sustentação, as transparentes, que começara a erguer anos atrás em um impulso ao mesmo tempo muito comum e bastante raro.

Sabia que aquele era mais um passo e que o caminho nunca teria um fim definitivo, pois muitos fins já haviam passado, muitos passos já haviam sido dados, e a história continuava sempre. Pensou que não era, mas logo percebeu que se enganara: era sim dependente do desejo.

Refletiu sobre qual era o seu desejo naquele momento. Não conseguiu, pois novamente o impulso lhe tomou. Percebeu que colunas transparentes não mostram a necessidade de reparo e que por isso são perigosas. Pensou em pinta-las, mas não achou suficiente. Pensou em substitui-las, e sentiu que seria em vão ou tarde demais. Sairia do castelo. Cairia no pântano como a semente que é pronta, pois precisava de um destino mesmo que torto ou limitado pelas margens sempre existentes.

****

Após algum tempo lambuzar-se tornara-se um ato contemplado pela atenção, e o sexo foi ganhando novos ares de coisa muito antiga, como numa espécie de vintage inédito. Até que chegou um dia em que desejou profundamente a próxima trepada, sem contudo planeja-la ou vizualiza-la de antemão, e pôs-se a esperar com paciência. 

Passaram-se quatro luas e então aconteceu. A outra genitália estava à sua frente, bem regada de sangue, úmida, cheirosa, pedindo atenção. Todos os seus sentidos se afloraram ao mesmo tempo. Alerta, entregou-se a vivenciar cada segundo daquela experiência única e excitante.

Seu corpo era todo energia, e seu espírito todo encanto. Os acordes daquela música especial soavam em algum lugar do universo.

O paladar não queria comida, somente o gosto do beijo, da pele, dos fluidos e das mucosas. Os olhos não queriam os detalhes detalhados, queriam-nos todos juntos. O olfato e a audição de nada necessitavam, pois estavam já repletos com os odores e os sons dos corpos muito unidos. O tato se perdeu de si mesmo, sem saber diferenciar o que emanava do que absorvia.

Um carinho intenso e recíproco surgiu. Sentiram vontade de fazer cafuné, beijar suas testas, afagar suas mãos, enquanto a excitação aumentava.

Foderam loucamente. Ora um silêncio lindo em que o mundo parecia existir só ali. Ora os gemidos, as risadas e as palavras mais banais preenchendo o infinito de forma inerente e convicta. As salivas se misturavam em suas bocas e se espalhavam, seus corações dançavam felizes. O calor crescia e seus suores também iam se misturando. Os fluidos brotavam como água na fonte, cobrindo tudo com seu cheiro. Sem pensamentos de ontem e de amanhã, gozaram por causa da exaustão.

4 comentários:

Michele P. disse...

A forma mais pura de amor...

Texto fantástico, claro, muito bem escrito! Parabéns, Marcos.

Um abraço

Átila Goyaz disse...

Marcos, suas palavras me ludibriaram, por vezes tive que reler o mesmo parágrafo tentando absorver sua essência, não por confusão mas pelo gosto estranho que você exalou. Um texto harmonioso, (enigmático?)e cheio de sentimentos. Delicadeza no uso das palavras em descrever as ações - internas e externas - e em provar que existe um fantástico eu dentro de você.Parabéns!

Mirella de Oliveira disse...

Nossa, que texto maravilhoso! Muitíssimo bem escrito! Fantástico, Marcos!

Gleidson Gomes disse...

Quase uma poesia em prosa, sensual e sensível!
Gosto de texto assim, que não se dá por inteiro e me faz procurar algo a mais nele e em mim!