Conteúdo adulto

sábado, 23 de julho de 2011

Desencontro

Não era Paris, muito menos um filme de Bertolucci. Encontraram-se perdidos numa outra realidade, as almas emaranhadas nas teias do vazio, os corpos cansados em meio a tantos sem sonhos. Suas vozes, pedaços alados de si mesmos, adejavam entre o ronco dos motores e o grito das buzinas, a aorta de Belém pulsando ali, entupida de ferro e carne. A Almirante transpirava, o odor quente da sua pele impregnando o ar, sufocando as vidas – óperas de tédio regidas pelo caos. Desconhecidos, eles caminhavam, palavras explodindo silêncios, minadas de solidão. O dia dava adeus à luz, as mangueiras carregadas de melancolia.

Olharam-se rapidamente, a magreza de um em vermelho e jeans, a barba do outro sempre por fazer. Conversaram sobre tudo, menos sobre o nada que apodrecia e começava a feder dentro dos dois. Sabiam porque estavam ali, mas não adivinharam aonde cada um queria chegar, o lixo amontoado nas esquinas, emoções espalhadas pelo peito. Mecanicamente, revolviam pequenas alegrias, os dejetos de suas vidas, escalavam os andaimes de suas esperanças, rebocavam de certezas as construções em tijolo cru de seus sonhos. Havia algo de irreversível naquele encontro, pensaram juntos, mas apenas em um a dor foi verdadeira.

Chegaram à casa, sem chegar a lugar nenhum. Inconscientemente, mantiveram-se na superfície, seguros longe do inferno um do outro, protegidos contra si mesmos. Olharam-se de novo, agora a luz amarela pintando sombras em seus rostos, o desejo se escondendo atrás dos olhos. Ele, sentido-se estrangeiro, emancipava Marabá, desfiando seus dias de lama em Belém. O outro, estrangeiro nele mesmo, sorria, calava, ouvia, esperava. Aos poucos entenderam: eram dois homens, isolados do mundo lá fora, vagando entre a brutalidade e a delicadeza de seus corpos, de suas emoções. E, sem querer, reconheceram-se um pouco um no outro, sem dor ou espanto, mas com a certeza de que talvez não se vissem mais, o labirinto da vida os separando.

Subiram a escada, cada passo seguido de um gemido sem nenhum prazer. Sentiram-se mais próximos, o desejo cavalgando no ar, a música ritmando seus pensamentos. E então, as palavras libertaram-se das bocas, nuas, impondo cores quentes à palidez das paredes, vida ao corpo morto dos livros, das camas, da TV. Por um segundo, viram um anjo voando pelo quarto, num bater de asas vermelho, o corpo seminu. Calaram-se. Já haviam se perdido, entenderam, o silêncio rindo dos dois, o desejo encolhido num canto do quarto, dentro deles.

Deu Morangos para ele, as letras encharcadas de poesia, seu mundo posto em carne viva. Ele leu e não conseguiu digerir, o sabor em sua boca lhe causando náuseas. Não adiantou o outro dizer que eram obra-prima, ele os vomitou como que enjoado pelo mofo. Aquela beleza não lhe pertencia, percebeu. Quero foder contigo, ele disse, as palavras inseguras, agarradas à garganta dele. E mal elas se despiram, o outro já estava nu, a alma sem roupa havia tempo. Por um momento, quis que realmente fosse um homem que estivesse ali, o membro volumoso varando suas entranhas, a vontade de nunca mais sentir-se sozinho.

Exploraram a geografia do quarto, de suas fantasias, juntos talvez pela última vez, um dentro do outro, o amor longe de ambos. Não haverá nós dois depois daqui, pensou, e gemeu uma dor profunda, esquecida do prazer. Queria mais e teve, todo, rápido, doce, de repente, fundo. Desejou o outro sempre ali: dentro, mas além de seu intestino, mergulhado em sua alma. Sem querer, pressentiu o fim, como num filme. Uma lágrima escorregou de seus olhos, o sol escorregando do céu. Amar seria fácil demais, não houvesse o abismo entre o sexo de um e o coração do outro.

Tinha de ir, de voltar. Marabá o esperava, as vidas de ilusão sem cinema, o cenário das ruas sem teatro. Não pertencia àquele clima chuvoso, ao caos do asfalto, à ninguém. Já havia perdido tempo demais com ele, transado demais com outros e nada mais o faria ficar. Ainda ajoelhado, o outro pediu, mas o anjo havia desaparecido. Desceu, a escada anunciando cada um de seus passos.

Só, o outro o ouvia abrir o chuveiro, a água compondo uma canção de despedida em seu corpo. O ocaso o olhava, ali sentado, algo estranho dentro do peito. Não notou antes, mas agora via o sangue coagulando em seus pelos. Estava ferido, pensou, e nu cambaleou até a varanda. Viu seu rosto em close-up, o olhar brando acariciando Belém, úmido de saudade. Observou a cidade, devagar: o tédio dos edifícios, a solidão das casas antigas, a arquitetura triste das árvores. O dia estava morrendo, sorriu, ele também. A cidade não era Paris, nem eles personagens de Bertolucci, pensou.

6 comentários:

Michele P. disse...

Solidão a dois...

Texto fantástico, Gleidson. Escrito com a maestria de quem domina a arte da palavra!

Um abraço

Átila Goyaz disse...

Gostei dessa miscelânia toda, muito show Gleidson!

Marcos Montanhês disse...

Não sei o que comentar... já senti isso, logo sou suspeito. Belo 'contro'. :)

Eraldo Paulino disse...

Égua... abismo entre sexo e coração é o que há de mais foda numa relação, acho. Parece briga física de homem contra mulher: covardia sempre.

Grande Gleidson!

Bjs!

Adison César Ferreira disse...

Gosto de textos em que consigo ver o autor em cada palavra. Parabéns, Gleidson. Ou melhor, ARRAZOU!

Gleidson Gomes disse...

Camaradas imputáveis, valeu!
Esse é um textinho antigo, mas pelo qual tenho um certo carinho.
E, César, é por aí que gosto de escrever, meio beat sabe: um pouco vivido, um pouco imaginado...